antes e depois

Trechos de Antes e depois, de Alba de Céspedes, com tradução e posfácio de Francesca Cricelli.
De repente percebi que, na minha vida, havia vozes, mais do que presenças; e que, a essa altura, eu ficaria sem aquele calor que sentimos somente ao viver com alguém, e que pagamos com o incômodo da convivência.
Não falamos sobre o artigo nem de nós mesmos, ou talvez o tivéssemos feito o tempo todo ao falar de outras coisas.
Tranquilizei-me ao entrar em contato com aquelas coisas, as únicas que sentia como minhas de verdade entre tudo o que me cercava.
Vi-me então sozinha num país que enfim parecia a minha pátria e, ao mesmo tempo, uma terra estrangeira.
Estar vivas não significa ser as mesmas de antes, e por isso eu não sabia se ainda éramos irmãs ou se tínhamos deixado de sê-lo, ainda que usássemos o mesmo sobrenome.
(...) fiquei feliz com a ausência de Pietro, que não poderia me julgar histérica como todo homem, mesmo o mais objetivo, está sempre pronto a julgar uma mulher que sofre.
Aristide vigiava, recomendando: “Cuidado, são coisas valiosas”; mas, ao ar livre, aquele lixo empilhado revelava a vaidade do poder atribuído às coisas que, sem a presença humana, tornam-se miseráveis, quase indecentes.
Nós também costumávamos fazer algumas bobagens; ficávamos tentadas por algumas coisas inúteis ou bizarras exibidas nas vitrines das lojas; mas, quando chegávamos em casa e abríamos o pacote, o que tínhamos comprado parecia um vaga-lume sem luz.
(...) eu poderia, sendo como sou, entrar no carro de um estranho, mas não conseguia fingir ser outra coisa.
(...) levantei-me de imediato e comecei a me arrumar quando a campainha da porta voltou a tocar, sem parar. Havia algo sinistro naquele som, então fui até a entrada na ponta dos pés e perguntei, contra meus hábitos: “Quem é?” Ninguém respondeu; do outro lado da porta, senti uma presença que não era casual.
posfácio
A ousadia de Alba estava em dar protagonismo a mulheres conscientes de si, que agiam autonomamente e redefiniam seu lugar no mundo, em plena Itália sufocada pelo fascismo.
Em um texto intitulado “Discurso sobre as mulheres”, publicado em março de 1948, Natalia Ginzburg narra o lado obscuro das mulheres, como a tendência à introspecção melancólica, que ela via como uma limitação. Alba de Céspedes, por sua vez, responde, em forma de carta, que, pelo contrário, “o poço”, ao qual Natalia Ginzburg se referia, era, na verdade, uma força: ao descer até as profundezas de si, as mulheres retornam à superfície com experiências que lhes permitem compreender o que os homens, que nunca caem no poço, jamais compreenderão.