tomanotas

dá pra fazer a vida caber numa mochila?

Hoje abri o Notas, aplicativo onde listo ideias pro blog, e me lembrei que tinha guardado este post, do Weston Ellerbrake, pra comentar sobre a ideia de viajar (e viver, também) com menos.

Em One Bag for One Week in Tokyo, Ellerbrake fala sobre uma viagem de oito dias na qual levou só uma mochila de 30 litros como bagagem. Cita os fanáticos do r/onebag como inspiração e as vantagens de perambular sem tanto peso nas costas, além da engenharia envolvida na hora de escolher o que levar, afinal, pra quem tem esse tipo de preocupação em mente, até o tecido das roupas que vão na viagem pode ser pensado com estratégia.

No fim de 2014, no auge do Medium, eu já tinha me interessado por este relato do James Turner, um (ex-?) nômade digital, sobre como ele vivia pra lá e pra cá com uma mochilinha de 26 litros. Obviamente, o caso dele era o de alguém que tinha um estilo de vida muito específico: carreira consolidada em tecnologia, trabalho 100% remoto e, muito provavelmente, boa autonomia financeira. Ainda assim, um nível de desprendimento digno de nota.

Dos dez anos que passei viajando a trabalho, os últimos quatro, entre 2021 e 2025, foram nessa pegada do Turner e do Ellerbrake: eu desenvolvi uma verdadeira fixação por leveza e praticidade. Comprei uma malinha underseater, dessas que entram debaixo do assento, e dei os meus pulos pra fazer caber nela tudo o que precisaria por até seis dias, que era o máximo de tempo que eu ficava fora de casa. Cada detalhe era pensado pra só precisar dela.

Esse aspecto contribuiu, mas não foi o único responsável por me tornar um “xiita do não-possuir”. Três mudanças recentes, duas de estado e uma de país, também tiveram o seu (enorme) peso.

A cada nova mudança que fazia, um novo desafio surgia quando precisava pensar a logística. Doei, vendi e descartei muita coisa – processo que me fez reavaliar parte do apego que tinha por bens materiais e desenvolver, ao mesmo tempo, uma nova condição: ter me desfeito de tantos itens pelos quais eu tinha carinho me transformou numa espécie de “desacumulador”. Pra ser breve, sincero e objetivo: eu passei a não gostar mais de possuir coisas.

trauma, alívio e futricagem

Pra mim, está claro que essa perspectiva surgiu de duas questões. Primeiro, o trauma: fazer uma grande mudança suga nossas energias, tanto físicas quanto emocionais – imagine três; depois, o deslumbramento: quando aprende a viver com menos e descobre que isso pode influenciar positivamente quase todos os aspectos da sua existência, da praticidade na limpeza da casa à sua saúde mental, você já não considera mais nenhuma outra alternativa.

Já tinha ensaiado algo sobre esse assunto nesta postagem, quando falei sobre como um período de contingência me fez rever a maneira como eu me relacionava com a acumulação no digital. Interessante observar como vira e mexe eu acabo voltando ao mesmo tema, mas sob outra perspectiva. Sinal de que ele de fato ressoa demais por aqui, inclusive pra além do trauma e do alívio, já que adoro saber como as pessoas lidam com o ~possuir.

Se esse também for o seu caso, talvez você curta explorar as discussões do r/ultralight, a seção de viagem do Wirecutter e a de mochilas do Manual, o Everyday Carry e o Pack Hacker.

Pode parecer uma besteira falar sobre esse assunto no planeta Terra de 2026, mas tudo o que traz algum alívio e estimula uma pontinha que seja de consumo consciente, hoje, é bem-vindo.

#anotação #minimalismo