tomanotas

impermanência e desterro, linguístico e geográfico

Trechos de Imagens imóveis: Sobre fotografia e memória, de Janet Malcolm, na tradução de Paulo Henriques Britto.

Seu humor era excelente — mas era humor tcheco. Ele escrevia muito bem em inglês, mas jamais poderia se tornar um escritor de verdade nesse idioma.
Sou inundada por coisas que quero dizer a respeito de meu pai. Ele deixou mais vestígios da sua existência do que a maioria das pessoas, porque estava o tempo todo fazendo anotações, em pequenas fichas, em papel fino (seus poemas), em diários, até mesmo nas paredes de uma cabana à margem de um lago onde ele e minha mãe passavam fins de semana e férias de verão. Minha cabeça está cheia de belas lembranças dele (...).
Ele seguia por um caminho só dele. Gostava de escolher e identificar florezinhas silvestres pequenas, frágeis, brancas, às quais eu jamais daria atenção, e que ele nunca me obrigou a observar.
Eles haviam se adaptado de imediato à América, mas paradoxalmente não aos americanos, que de algum modo permaneciam estrangeiros para eles.
Há uma espécie de esteticismo atávico na alma francesa. [Na França,] Os menores objetos de uso cotidiano têm um toque de beleza.
Ele aprendeu a falar francês no primeiro verão, quando estava na idade perfeita para isso (oito anos). (...) Ele adquiriu as entonações, as cadências e até mesmo as expressões faciais de um francês. Transformava-se em outra pessoa quando falava a língua.

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